jusbrasil.com.br
4 de Abril de 2020

Enfim, morto.

Márcio Costa, Advogado
Publicado por Márcio Costa
há 2 meses

A vida passa e, como se fosse numa janela de ônibus, ou avião, ou qualquer outra coisa, vamos levando em movimentos automáticos. É o poder do hábito, que mecanicamente faz você viver sem, necessariamente, pensar nas engrenagens que manipulam esse complexo jogo.

Corta a cena, acordo, sou do tipo que não espera o modo soneca, mas o celular começa a toca uma playlist qualquer no Spotify. Espero um minuto sentado até entender o que acontece. É mais um dia. Ainda não morri, não nessa dimensão. Ando pela casa com a toalha no ombro, tentando não ser derrubado pelo felino que me faz companhia há 3 anos.

Ligo a televisão (único momento do dia que faço isso), a voz de um jornalista faz fundo ao meu gato se alimentando lentamente. Passo um café com canela e sem açúcar, desfruto dessa sensação olhando pela janela do meu apartamento. Ainda é noite, em certas épocas do ano custa mais a amanhecer, penso. Ao longe, pichações me fazem entender que o Estado não tutela aquele espaço.

Ouço a notícia e volto a atenção. Justiça reconhece a morte de jovem após vinte e cinco anos. Após alguns momentos, entendo que se trata do "Massacre de Corumbiara", acontecido em Rondônia, pertinho daqui, do Acre. Mais que rememorar a tragédia, penso na morte. Seja na instantaneidade, seja numa linha do tempo que se arrasta com dúvidas/esperanças.

Por um momento os gestos automáticos me lançam para a próxima notícia. O automatismo da banalidade deixou o jovem, agora oficialmente morto, para eu saber como será o tempo na pequena e violenta Rio Branco. É a hora que me dou conta, com ou sem o pesar necessário, que as coisas acontecem e não temos o menor poder de mudar nada, a não ser o que pensamos.

Como advogado, concentro minha atenção na morte do jovem, agora, burocraticamente reconhecida. E como pensador, como todos somos, entendo que existe um papel importante em possibilitar a existência de direitos, sejam quais forem, mesmo o de ser reconhecido como morto.

E eu, que entrei em 2012 na faculdade com tantas dúvidas, após todos esses anos, entendi que estou onde deveria estar, na insurgência frente a vagueza estrutural de uma sociedade que se tornou padronizada e repele com robustez o outro, por vezes tolhendo-lhes direitos fundamentais.

O direito de uma família de se despedir dos seus mortos. É basicamente isso que trata nosso código penal. O positivismo da lei é o mais frio possível. Creio que depois de vinte e cinco anos essa despedida não é mais possível, pelo contrário, foi sendo construída a cada dia, ao longo de esforços infrutíferos de procura, após dias e dias de dor e resignação.

Perco muito tempo pensando em coisas sem propósito, que não necessariamente nascem de leituras sem propósito. O ato de ler é o maior ato de resistência de todos os tempos. Assim como o ato de escrever, guardadas as devidas proporções, nos coloca em trincheiras virtuais, onde podemos lutar pelo que acreditamos.

Aplaudo todo ato de libertação e entendo que o advogado atua na esteira das pluralidades de enunciação do direito. Ele possibilita a materialização do positivismo frio da lei quando se revolta e coloca na sua atuação parte da resignação contida em cada pessoa.

Numa sociedade onde ninguém deveria ser uma caixa fechada em si, tal qual uma mônada, lembrando aqui o velho Fernando Pessoa ou mesmo Leibniz, advogar é empreender contra o vazio da ignorância e isolamento que cerca todas as possibilidades de direitos, que a estrutura quer retirar dos menos favorecidos.

Num mundo com 7 bilhões de pessoas não somos especiais.

Não adianta você, coach televisivo tentar e dizer o contrário, mas isso significa, não obstante, que temos singularidades em si mesmos, que não podem ser medidas. Por isso mesmo, morrer para direito pode ser um mero ato que apenas movimente algumas folhas de papel, alguns serviços burocráticos e leve à televisão alguma notícia.

Mas morrer para o outro, como qualquer ato de ações interpessoais, é uma parte de um microuniverso que deixa de existir. Talvez seja apenas um CPF a menos e nunca faça falta de verdade, talvez eu tenha me comovido por nada e no fim das contas no dia seguinte, volte aos meus hábitos automáticos (entre eles o de ser expectador do real).

Talvez.

***

Troque uma ideia comigo, compartilhe esse texto se te ajudou e me acompanhe nos espaços onde escrevo. O convite está feito.

Jusbrasil: https://marciobcosta.jusbrasil.com.br

Site pessoal: https://www.marciocosta.adv.br

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/mbcosta84/

Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/

18 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Meu deus! Que texto maravilhoso Dr.! Parecia que eu estava lendo uma crônica envolvente.

Realmente hoje em dia parece tudo tão insignificante, as pessoas, os crimes, o cotidiano. É triste ver que a humanidade foi reduzida ao mero que pena. continuar lendo

Isso é o que mais me chama a atenção, Dra. Alice. O mundo tem caminhado nesse sentido, mas como o texto mesmo fala, podemos ser resistência, de muitas maneiras. Obrigado pela contribuição e convido-lhe novamente a fazer uma visita em meu site: www.marciocosta.adv.br. Abs. continuar lendo

Antes, lutávamos contra as 'estruturas que querem desprovir os pobre e oprimidos'. Hoje, temos que lutar com um bando de Juízes que desconhecem a pobreza e desgraça alheia. Parecem mais um 'centro espírita' onde se você diz: meu cliente está sofrendo injustiça e sofre, o Julgador com uma pergunta de retórica: O que você fez no passado?

kkkk continuar lendo

Faz muito sentido!!! continuar lendo

O ato de ler e escrever são muito prazerosos e textos como este, tornam mais agradável o dia daqueles que apreciam esta arte e sabedoria. Parabéns Dr Marcio! continuar lendo

Grato pela contribuição, nobre colega. Caso tenha interesse estou começando a produzir conteúdo em um site: www.marciocosta.adv.br, sinta-se convidado. Abs. continuar lendo

Excelente crônica colega, infelizmente vivemos em um país das inversões de valores, do politicamente correto e do salve-se quem puder. continuar lendo

Grato pela contribuição, nobre. Que bom que gostou. Caso tenha interesse estou começando a produzir conteúdo em um site: www.marciocosta.adv.br, sinta-se convidado. Abs. continuar lendo